Estudo inédito aponta potencial de créditos de carbono para impulsionar eólica offshore no Brasil
Análise encomendada pelo GWEC à WayCarbon identifica metodologias para geração de créditos por projetos no país, mas destaca que a receita deve ser complementar à viabilidade financeira dos empreendimentos
São Paulo, outubro de 2026 - Projetos de energia eólica offshore no Brasil podem gerar créditos de carbono e, com isso, agregar uma receita adicional a empreendimentos que ainda avançam em estruturação no país. Essa é a principal conclusão de um estudo inédito encomendado pelo Global Wind Energy Council (GWEC) à consultoria WayCarbon, que avaliou as condições para emissão desses créditos, os critérios de adicionalidade exigidos por padrões internacionais e a contribuição potencial dessa receita para a viabilidade financeira dos projetos.
O levantamento identificou três caminhos metodológicos aplicáveis à eólica offshore brasileira: a ACM0002, referência histórica para projetos de energia renovável conectados à rede; a VMR0017, da Verra, que inclui explicitamente essa tecnologia; e uma metodologia em desenvolvimento no âmbito do Mecanismo de Crédito do Acordo de Paris, previsto no artigo 6.4. A análise conclui que não há barreira metodológica relevante para projetos greenfield conectados ao Sistema Interligado Nacional, embora cada empreendimento precise atender aos critérios específicos do padrão escolhido.
“A principal conclusão é que é possível gerar créditos de carbono com projetos de eólica offshore no Brasil. Esse é um caminho que os desenvolvedores devem considerar, porque pode contribuir para a viabilidade financeira dos empreendimentos”, afirma Gustavo Ferreira, Policy Officer para o Brasil do GWEC.
O estudo, cuja versão final é de julho de 2026, será apresentado pela primeira vez ao público no Brazil Windpower 2026, realizado pela Informa Markets, com coorganização da ABEEólica e do GWEC, entre 27 e 29 de outubro, no São Paulo Expo, em São Paulo. O material destaca, no entanto, que a estimativa de receita com créditos de carbono deve ser feita com conservadorismo. Embora possa reforçar a atratividade financeira dos projetos, essa receita não deve ser tratada como a principal base econômica de empreendimentos que exigem investimentos elevados, longos prazos de desenvolvimento e infraestrutura adequada para conexão e transmissão de energia.
A cautela é reforçada pela própria composição da matriz elétrica brasileira, predominantemente renovável. Como a quantidade de emissões evitadas por um novo empreendimento depende do fator de emissão da rede, que pode variar ao longo do tempo, o potencial de geração de créditos precisa ser analisado com prudência. Além disso, os projetos devem demonstrar adicionalidade de acordo com os requisitos da metodologia adotada, comprovando que atendem às condições necessárias para que as reduções de emissões sejam reconhecidas para fins de emissão de créditos.
“Como a matriz elétrica brasileira já é muito renovável, uma nova fonte de geração não necessariamente proporciona uma redução expressiva das emissões do setor. Por isso, é importante que os desenvolvedores trabalhem com projeções conservadoras e considerem as incertezas sobre como estará a matriz elétrica quando esses projetos entrarem em operação”, explica Ferreira.
A análise é divulgada em um momento de construção do ambiente regulatório para a eólica offshore no Brasil. A Lei nº 15.097/2025 estabeleceu o marco legal para o aproveitamento de áreas marítimas destinadas à geração de energia, enquanto a Lei nº 15.042/2024 criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). A integração dos créditos gerados por projetos offshore ao mercado regulado brasileiro, entretanto, ainda depende de regulamentação.
Além dos requisitos metodológicos, a viabilidade dos empreendimentos está condicionada a fatores como custo de capital, previsibilidade regulatória, disponibilidade de infraestrutura portuária e de transmissão, riscos de restrição à geração e maturidade da cadeia de suprimentos. Por isso, o estudo recomenda que as exigências de monitoramento, relato e verificação das reduções de emissões sejam consideradas desde o desenho dos projetos, assim como a documentação necessária para demonstrar adicionalidade.
O cenário reforça a importância de tratar o mercado de carbono como parte de uma estratégia financeira mais ampla. Em 2024, créditos de projetos de energia renovável registraram preço médio de US$ 2,67 por tonelada de dióxido de carbono equivalente no mercado voluntário, segundo os dados utilizados no estudo. Esse patamar evidencia as limitações de depender exclusivamente da comercialização dos créditos para compensar os custos de implantação de empreendimentos offshore.
Para o GWEC, a atração de investimentos para o segmento também depende de segurança regulatória e de condições que permitam aos desenvolvedores avaliar áreas marítimas e avançar na preparação dos projetos com maior previsibilidade. A regulamentação do marco legal deverá detalhar critérios e procedimentos para a concessão dessas áreas, etapa necessária para viabilizar estudos, planejar investimentos e dar maior clareza ao avanço dos empreendimentos.
“Os desenvolvedores precisam ter segurança de que poderão estudar uma área e, caso confirmem sua viabilidade, haverá um processo definido para avançar com o projeto e comercializar a energia. São investimentos significativos desde as etapas iniciais, e a previsibilidade regulatória é fundamental para dar confiança a quem pretende investir no Brasil”, considera Ferreira.
O Brasil reúne condições estratégicas para desenvolver a atividade, ao combinar experiência em operações offshore de petróleo e gás, uma indústria eólica terrestre consolidada e uma matriz elétrica majoritariamente renovável. A expansão da eólica offshore também pode gerar sinergias com a produção de hidrogênio de baixa emissão e apoiar a descarbonização de atividades industriais.
Diante desse contexto, o estudo recomenda que o poder público avance na regulamentação do marco legal, integre a expansão offshore ao planejamento de transmissão e armazenamento de energia e esclareça a relação entre os créditos gerados pelos projetos e o SBCE. Para investidores e desenvolvedores, a orientação é incorporar os requisitos de carbono desde as fases iniciais, documentar a adicionalidade e avaliar com cautela os riscos regulatórios, financeiros e de conexão à rede.
Os resultados serão apresentados no Brazil Windpower 2026, evento que reúne representantes da indústria, investidores, especialistas e autoridades para discutir os desafios e as oportunidades de desenvolvimento da energia eólica no Brasil.
Serviço
Brazil Windpower 2026
Data: 27 a 29 de outubro de 2026, das 10h às 20h
Local: São Paulo Expo – São Paulo (SP)
Endereço: São Paulo Expo – Rodovia dos Imigrantes, km 1,5, Vila Água Funda, São Paulo (SP)
Link para credenciamento: https://www.brazilwindpower.com.br/imprensa/
Realização: Informa Markets (promotora e organizadora), com coorganização da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica) e do Global Wind Energy Council (GWEC)
Sobre a Informa Markets
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Sobre o GWEC
O Global Wind Energy Council (GWEC) atua na promoção da energia eólica em todo o mundo, apoiando a abertura de novos mercados e o desenvolvimento da indústria em países como Brasil, China, México, África do Sul e Índia.



