Brazil Windpower 2026 encerra edição com debates sobre inovação, segurança regulatória e soluções para o futuro da energia renovável. Confira os destaques.
São Paulo, 29 de outubro de 2026 – Com mais de 4.800 participantes e 110 marcas presentes, o Brazil Windpower 2026 encerrou nesta quinta-feira (29), no São Paulo Expo, na capital paulista, sua 17ª edição. Foram três dias de debates, conexões e apresentação de soluções para as demandas e oportunidades da energia eólica no país.
Ao longo dos três dias de evento, os participantes discutiram alternativas para ampliar a eficiência do sistema elétrico e criar condições para novos investimentos, acompanhando as transformações tecnológicas do mercado de energia.
Distribuídos em três arenas – Onshore, Offshore e O&M (Operação & Manutenção) –, os debates reuniram representantes do poder público e de empresas do setor, que destacaram a necessidade de planejamento de longo prazo, aperfeiçoamento das regras e articulação entre os diferentes agentes para viabilizar projetos de geração renovável.
Liliane Bortoluci, diretora de Eventos de Negócios da Informa, ressaltou a importância do evento para conectar os diferentes agentes do mercado e contribuir para o desenvolvimento do setor. "Ao longo do evento, debatemos temas como o curtailment, a modernização da transmissão e a segurança regulatória, além de soluções para ampliar a demanda por energia renovável, incorporar novas tecnologias e atrair investimentos", afirmou.
Segundo ela, as discussões mostraram que ainda há desafios pela frente, mas também muitas oportunidades. Liliane destacou ainda todos os atores que contribuíram para o sucesso de público do Brazil Windpower 2026, que reuniu mais de 4.800 participantes, 110 expositores e cerca de cem jornalistas de grandes veículos de comunicação e empresas do setor. "Agradecemos a todos os participantes, palestrantes, expositores, patrocinadores e parceiros que fizeram parte desta edição. Esperamos continuar construindo juntos o futuro da energia eólica no Brasil", concluiu.
O terceiro dia de programação
Um dos destaques do último dia foi o painel "Perspectivas sobre a nova Política Nacional de Acesso à Transmissão", que discutiu o crescimento dos pedidos de conexão à rede e os critérios para organizar o acesso à infraestrutura elétrica. Lorena Melo, diretora de Programa do Ministério de Minas e Energia (MME), abordou a Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), instituída em dezembro de 2025.
A política prevê análises conjuntas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) nas chamadas Temporadas de Acesso, com processos competitivos quando a demanda supera a capacidade disponível nos pontos de conexão.
A discussão se pautou pela importância de avaliar a maturidade dos empreendimentos e utilizar a infraestrutura de forma eficiente, além de aprimorar as informações sobre onde e quando os projetos pretendem se conectar.
Participaram também Fábio Reis, gerente-executivo da diretoria de TI, Relacionamento com Agentes e Assuntos Regulatórios do ONS; Tiago Correia, sócio-diretor da RegE Consultoria; e Janaina Angelim, diretora de Engenharia e Implantação da Engeform Energia/PEC Energia.
Baterias ganham espaço no planejamento energético
O armazenamento de energia por baterias esteve presente no painel sobre o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP). Gustavo Ponte, superintendente de Geração de Energia da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), informou que a instituição recebeu 601 projetos para o certame, dos quais 580 combinam geração solar e baterias. Juntos, os empreendimentos somam quase 300 GW de potência cadastrada.
Segundo Ponte, o planejamento energético aponta a necessidade de 7 GW em baterias até 2036. Outras alternativas para ampliar a capacidade e a flexibilidade do sistema elétrico também são importantes, como usinas reversíveis e mecanismos de resposta da demanda.
Tiago Correia, sócio-diretor da RegE Consultoria, destacou o potencial de expansão do armazenamento diante da crescente necessidade de flexibilidade do sistema elétrico e da redução dos custos da tecnologia. Além do leilão, os debates apontaram oportunidades para baterias em projetos de transmissão, sistemas isolados e instalações associadas à geração renovável.
As condições para participação dos empreendedores também estiveram em pauta no painel sobre os ajustes no edital do primeiro Leilão de Reserva de Capacidade voltado a sistemas de armazenamento por baterias, moderado por Markus Vlasits, presidente da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE).
Entre as mudanças discutidas estiveram a autorização para participação de agentes de transmissão, a retirada de restrições a consórcios e fundos de investimento e a revisão dos valores de referência para o cálculo de garantias e penalidades.
Apesar dos avanços, os participantes apontaram que ainda existem incertezas regulatórias capazes de influenciar decisões de investimento. O resultado do primeiro leilão poderá contribuir para identificar os custos reais da tecnologia e orientar o aperfeiçoamento dos próximos certames.
Previsibilidade tributária e competitividade em pauta
Os efeitos da Reforma Tributária sobre investimentos, contratos e competitividade foram discutidos no painel "Reforma Tributária em vigor: efeitos sobre a competitividade dos projetos renováveis".
Petrus do Vale, consultor tributário da Equinor, chamou a atenção para a importância da segurança jurídica em projetos que exigem recursos mais longevos. "Para investimentos de longo prazo, você precisa ter previsibilidade, o que a gente hoje não tem", pontuou.
O debate abordou a aplicação do Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (REIDI) a partir de 2027, as perspectivas para o armazenamento de energia por baterias e os possíveis impactos das mudanças tributárias sobre a estruturação dos empreendimentos.
Yuri Magalhães, consultor tributário da Engie, discutiu os mecanismos de reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos de venda de energia e os possíveis efeitos da revisão de preços durante a transição tributária, incluindo as relações entre geradores e distribuidoras. A sessão foi mediada por Fernanda Sá, sócia do Machado Meyer, e contou ainda com Juliane Garozi Nascimento, gerente de Impostos, Projetos e Dados LATAM da Vestas.
Os participantes sublinharam fatores como eficiência operacional, produtividade e logística para a competitividade dos projetos, diante das mudanças nas regras tributárias e da necessidade de maior previsibilidade para os investidores.
Eólicas offshore exigem planejamento e diálogo com comunidades
O desenvolvimento da energia eólica offshore no Brasil foi tema do painel "Participação, diálogo e valor compartilhado no desenvolvimento das eólicas offshore", que reforçou que a expansão dessa modalidade de geração precisa considerar os diferentes usos do mar, o planejamento espacial marinho e o envolvimento das comunidades desde as etapas iniciais dos projetos.
Alexandre Gross, do WWF-Brasil, defendeu uma atuação coordenada do poder público no planejamento do setor. "A gente precisa de uma presença estatal muito forte, de planejamento e coordenação entre diversas áreas e setores, para além da energia", afirmou.
Ricardo Voivodic, do Ministério do Meio Ambiente (MMA), destacou que o planejamento espacial marinho pode ajudar a antecipar conflitos entre empreendedores, pescadores, comunidades tradicionais e outros usuários do mar, evitando que questões previsíveis sejam tratadas apenas durante o licenciamento ambiental.
Lisandra Matos, do Stockholm Environment Institute (SEI), compartilhou experiências internacionais e enfatizou a importância do envolvimento antecipado das comunidades. "Os projetos de maior sucesso em que trabalhei foram justamente aqueles que fizeram esse engajamento com os pescadores com antecedência", relatou.
Moderado por Solange David, do Women in Energy – CIGRE International, o painel também contou com Rita Alves e Silva, do Ministério de Minas e Energia. As contribuições reforçaram a importância de conciliar a expansão da geração renovável com a proteção ambiental e a preservação dos meios de subsistência das populações costeiras.
Formação profissional para a indústria de longo prazo
A qualificação da mão de obra também esteve entre os temas do último dia. Durante o painel sobre capacitação profissional, Marco Antonio Juliatto, do Ministério de Minas e Energia (MME), alertou que a preparação de trabalhadores para as novas demandas do setor precisa começar com antecedência.
De acordo com Juliatto, a revisão de currículos, a preparação de professores e a estruturação de laboratórios podem levar de cinco a dez anos, o que torna necessário antecipar as necessidades da indústria. A discussão considerou as transformações tecnológicas e a expansão de áreas como armazenamento por baterias, uso de drones, processamento de dados e projetos offshore.
Na abertura do painel, a moderadora Carolina, da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), citou 36,3 GW em parques eólicos em operação ou em testes, cerca de 1.170 parques e mais de 12 mil aerogeradores.
Maycon de Souza Silva, da Vestas Academy LATAM, apresentou mudanças nos processos de capacitação da empresa, que reduziu o período de formação inicial de técnicos de oito para cinco semanas e o tempo médio de reciclagem de três semanas para uma.
Thomas Redmond, da Global Wind Organisation (GWO), ressaltou a importância de alinhar padrões internacionais às exigências brasileiras e observou que a certificação não substitui a avaliação das competências necessárias para tarefas específicas.
Os participantes defenderam maior integração entre empresas, instituições de ensino e poder público para preparar profissionais diante das novas necessidades do mercado e acompanhar a evolução tecnológica da indústria.
As discussões convergiram para a necessidade de transformar o potencial brasileiro em projetos viáveis, com planejamento de longo prazo, infraestrutura adequada, estabilidade regulatória e incorporação de novas tecnologias. A qualificação profissional, o diálogo com as comunidades e a integração entre poder público e iniciativa privada também estiveram entre os pontos relevantes para o desenvolvimento do setor.
A edição do evento em 2026 reforçou seu papel como espaço de conexão e construção de caminhos para o futuro da energia renovável no país, reunindo representantes da indústria, especialistas, instituições públicas e empresas em torno de temas que influenciam o planejamento, a competitividade e os investimentos no setor.



